Andy Warhol (1928-1987)

Servidor da cultura de massas ou estímulo para a massificação da comunicação? Artista ou empresário arguto?

Cristina Andrade

ANDY WARHOL (1928-1987)

Servidor da cultura de massas ou estímulo para massificação da comunicação?

Artista ou Empresário arguto?

“I'd prefer to remain a mystery. I never give my background, and, anyway, I make it all up different every time I'm asked.”

“They always say time changes things, but you actually have to change them yourself.”

“It would be glamorous to be reincarnated as a great big ring on Liz Taylor's finger.”

“My idea of a good picture is one that's in focus and of a famous person.”

“Isn't life a series of images that change as they repeat themselves?”

“In the future, everyone will be famous for 15 minutes.”

“I'm afraid that if you look at a thing long enough, it loses its meaning.”

“Fashion wasn't what you wore someplace anymore. It was the whole reason for going.”

“I love going out every night. It's so exciting.”

“The idea of waiting for something makes it more exciting.”

“I am a deeply superficial person.”

Andy Warhol

Muito se tem escrito sobre Andy Warhol. Conhecem-se em detalhe todas as fases da sua vida, pública e privada, escrutinada e vasculhada pelos media com uma inusitada avidez. As suas obras estão cirurgicamente analisadas e catalogadas com critérios que variam entre a vulgaridade de tabloide à seriedade de estudos académicos multidisciplinares, com graus de apreciação que também oscilam entre a procura do rigor e a deliberada opção pela explicação hermética, elitista, por vezes roçando o esoterismo.

A sua celebridade, de facto ultrapassa, de largo, uns meros 15 minutos…

Tudo aconteceu, quer involuntária quer deliberadamente, para ser projectado muito para lá duma existência banal.

Desde a grave doença que afectou a sua infância (a doença de Huntington também conhecida como corea), ao atentado a tiro perpetrado por uma escritora feminista (Valerie Solanis) em Junho de 1968, passando pela sua alegada androginia, tudo serviu, e ainda serve, para promover a sua personalidade, o seu modo e estilo de vida, carreira e obra. E, note-se, a mais das vezes com o mais amplo desprezo pela sua sensibilidade artística, pela sua imensa e multiforme criatividade e pelo seu incontestável talento.

Não inventou a Pop Art, mas deu-lhe uma consistência, uma vitalidade e uma acutilância comunicativa que ela não possuía, nobilitando-a, tornando-a um bem efectivamente popularizado.

A questão que subsiste é a de curar se ele mesmo não foi absorvido pela força mobilizadora que imprimiu à Pop Art, pela pluridisciplinaridade das suas dedicações, pela febril produção em registos sempre diversos e pela velocidade da sua divulgação. Tudo num tempo em que cada vez mais se explora o resultado e menos se atende aos processos criativos.

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Andrej Varhola (Andy Warhol) em 1949 licenciou-se em artes gráficas no “Carnegie Institute of Technology”, pertencente à “Carnegie Mellon University”. Aluno distinto viu os seus trabalhos académicos premiados e exibidos pela Universidade. Este simples facto justifica ter sido imediatamente contratado como artista gráfico da “Columbia Records” da “NBC”, da “Tiffany & Co” bem como de renomadas revistas de larga tiragem (Vogue, Harper’s Bazaar e New Yorker) e, mais tarde, convidado para o cargo de director artístico do “American Institute of Graphic Arts”.

Em 1952, a “Hugo Gallery” de Nova Iorque (fundada em 1945 por Robert de Rothschild, Elizabeth Arden e Maria dei Principi Ruspoli Hugo) promove a sua primeira exposição individual exibindo 15 ilustrações do jovem Warhol baseado em personagens do escritor Truman Capote (1924-1984).

Em 1956, a direcção do “MOMA” (Museum of Modern Art) decidiu organizar uma nova exposição destas ilustrações.

Num lapso de apenas 7 anos Warhol de um simples desenhador de Pittsburgh passou a dirigir o grafismo de empresas de comunicação e das páginas de prestigiadas publicações de Nova Iorque para as salas duma quase hermética galeria de arte até às do exigente e quase inatingível “MOMA”. O mesmo é dizer que cruzou o caminho que vai do anonimato à inquestionável aceitação da sua arte como uma das mais marcantes da segunda metade do século passado.

A década de 60 é o marco inicial da série de obras pelas quais Warhol ainda hoje é mais conhecido: as serigrafias intervencionadas com temas até então exclusivos das campanhas publicitárias dos mais comuns e vulgares produtos de consumo diário. 

As latas de sopa “Campbell” e as garrafas de “Coca-Cola” saltaram das prateleiras das mercearias e supermercados para as paredes das galerias e destas para as inúmeras e mais ecléticas colecções de arte.

Simultaneamente, as serigrafias e litografias de Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor, Elvis Presley, Mao Tsé Tung, Che Guevara, John Lennon, entra outras, constituíram um conjunto de obras que são a celebração artística de objectos e de personalidades diversas duma época devidamente identificada, e identificável, dos múltiplos padrões referenciais que a serviram e dataram sem espaço para equívocos. O vulgar, o comumente adquirido e inerte objecto em paralelo com o popularmente conhecido, pela mão da criatividade de Warhol tornaram-se símbolos icónicos duma era.

Em 1962 funda a “The Factory”, um estúdio que foi muito mais do que um local de trabalho tornando-se num espaço lendário de happenings permanentes, multiformes, febris e inclusive marginais. Foi a sede da “Era de Prata” de Warhol (numa alusão à decoração de Billy Name (1940) com predominância dos tons, materiais e texturas metálicas) onde à sua volta, e a suas expensas, gravitava toda a gama de artistas plásticos, de poetas, de músicos, fotógrafos, actores, artífices, de pseudo-artistas, travestis, transsexuais, “drag queens” e toxicodependentes.

A “The Factory” foi, na plena acepção do termo, uma fábrica de serigrafias e litografias, foi estúdio de cinema, de fotografia, e de gravação de música. Foi, sobretudo, uma abundante fonte de actividades fervilhantes, sob a égide de anfetaminas, a par de incessantes e estrepitosas modalidades de criatividade. Foi o ambiente que Warhol patrocinou porque dele necessitava, o seu sanctum sanctorum.

Em 1963, estreia-se como realizador cinematográfico com a película “Sleep” onde em mais de 320 minutos de projecção, documenta o sono performativo de John Giorno (1936). Em 1966 seguiu-se o filme experimental de 70 

minutos “More Milk - Yvette”, filmado em 1965 com uma simples câmara de 16 mm. De 1966 a 1977 Warhol realizou e produziu 228 filmes que na sua maioria fizeram (e ainda fazem) as delícias de comissões de censura.

Em 1968, uma das frequentadoras da “The Factory”, Valerie Solanis (1938-1988) feminista radical - fundadora e única militante da “Society for Cutting Up Men”, autora do “S.C.U.M. Manifesto” em que pugnava pela destruição das instituições governativas e monetárias, pela total automação da vida e pela erradicação do sexo masculino - baleou Andy Warhol. Este incidente foi retratado no filme da canadiana Mary Harron, “I Shot Andy Warhol”, estreado em 1996 no “Sundance Film Festival”, contribuindo para acentuar a exaltação da já mundialmente aplaudida carreira de um Warhol, agora vítima dos excessos da atmosfera onírica que criou na qual se envolveu ao extremo de arriscar a vida.

Contudo, a “The Factory” suscitou a curiosidade e recebeu festivamente as visitas frequentes de firmadas personalidades do mundo artístico como 

Salvador Dali, Fernando Arrabal, Truman Capote e Allen Ginsberg, Bob Dylan, Brian Jones, Lou Reed e Mick Jagger. Foi o berço do grupo “Velvet Underground”, produzido e assistido graficamente por Warhol. É de destacar a capa que desenhou e concebeu para o célebre álbum de estreia “The Velvet Underground and Nico”, em 1965, considerada hoje uma das suas mais prodigiosas criações.

Ainda neste âmbito particular do entertainment, não pode ficar sem menção a produção “Exploding Plastic Inevitable”. Sob esta designação, Warhol realizou espectáculos, inicialmente em Nova Iorque e depois em todo o país, amalgamando actuações dos “Velvet Undeground” com dança, projecção de filmes e performances de pop art, em moldes e proporções inéditas, ousadas, iconoclásticas, propositadamente decadentes e frontalmente provocadoras dos valores basilares da sociedade americana, designadamente pela apologia das drogas e do sadomasoquismo. De qualquer sociedade, diga-se. Basta ver o seguinte trecho duma crónica de 1968 do “Chicago Daily News”: 

“ (…) é um espectáculo que não dá tréguas ao horror. Uma experiência brutal em que “a verdade” é exposta sem critério. A certo momento torna-se inaudível. Mas, o que fazer com o que restou no nosso cérebro? O futuro jamais será o que foi.”

Outra das ideias de Andy Warhol foi a criação dos “Warhol Superstars”, categoria atribuída a frequentadores da “fábrica” que actuavam nos seus filmes. Tanto bastava para serem declarados superstars e passarem a ser portadores dum título indispensável para a fama futura, posto que glorificados pelo reconhecimento implícito de um talento. Esta foi outra das iniciativas de Warhol que se tornou, diremos hoje, viral. Disputadíssima, particularmente polémica e descartada como critério de avaliação é a aplicação prática do princípio por ele anunciado dos 15 minutos de fama.

O seu nome e obra, apesar do seu desaparecimento em 1987 na sequência duma cirurgia, são um dos mais incontornáveis das artes e da cultura do século passado.

E perdurarão, porquanto por testamento, além de modestos legados à sua família, determinou que o seu património (tão vasto que demorou nove dias a ser leiloado, só quanto a bens móveis, pela Sotheby’s ) fosse afecto a uma instituição dedicada ao “desenvolvimento das artes visuais” (sic): A “Andy Warhol Foundation for the Visual Arts”.

 Sugestão de consulta: Warhol Foundation