Jawlensky Alexej Georgewitsch von (1864 – 1941) e os “Der Blauer Reiter”

Biografia

Cristina Andrade

Jawlensky Alexej Georgewitsch von (1864 – 1941) e os “Der Blauer Reiter”

Biografia

Nascido em Torzhok, numa família aristocrática com tradição militar, foi-lhe destinado o dever de a prosseguir alistando-o na escola de cadetes de Moscovo. Porém, já adulto e livre do serviço das armas do Czar Nicolau II (1894-1917) em Munique pôde realizar a sua verdadeira vocação: as artes plásticas.

Dos seus apontamentos autobiográficos, memórias, críticas e pensamentos, sabemos que o seu primeiro contacto com a arte deu-se em 1880 na “Exposição Mundial” realizada em Moscovo no reinado de Alexandre II (1818-1881). Tinha 16 anos. A exposição em si mesma não o interessou: uma fonte de “tédio e aborrecimento”. Porém, num dos pavilhões exclusivamente dedicado às belas artes, pela primeira vez na sua vida viu pinturas diferentes das que conhecia. Não eram as tradicionais obras de arte sacra da devoção Ortodoxa nem a pintura decorativa da Europa Ocidental massivamente importada desde finais do Séc. XVII:

 “Fiquei tão profundamente impressionado, tal como quando Saulo passou a ser Paulo. Foi o momento de viragem na minha vida. Desde então a arte passou a ser o meu ideal, o mais sagrado do que é sagrado, tudo quanto a minha alma e todo o meu ser deseja.”

(Jawlensky, source of the artist quotes on his paintings, portrait art and ‘Variations’: ‘Lebenserinnerungen’ (Memories, fh) 1938, by Alexej von Jawlensky; as quoted in ’Alexej von Jawlensky’, Museum Boymans-van-Beuningen, Rotterdam; exhibition catalogue 25/9 – 27/11-1994, p. 20.)

Viria a tornar-se o mais célebre pintor expressionista de origem Russa, raiz da qual nunca abdicou.

Apesar de estar num regimento estacionado em Moscovo, conseguiu licença para ser incorporado numa unidade em S. Petesburgo onde pode começar a estudar pintura. 

Em 1896, libertado do serviço militar, decidiu mudar-se para Munique impulsionado pela pintora Marianne von Wereflink (1860-1938) com quem mantinha uma relação de intimidade, prolongada por 24 anos apesar de recorrentemente afectada por crises imputáveis a Jawlensky. 

Nascida numa abastada e igualmente aristocrática família, Marianne era uma promissora e talentosa pintora. Todavia, ficou incapacitada devido a um acidente de caça. Apesar da difícil e por vezes tormentosa relação com Jawlensky foi a sua fiel mentora e a primeira promotora da sua obra. Em Munique já pontificava o seu compatriota Wassily Kandinsky (1886-1944). Foi precisamente nesta cidade que em 1911 surgiria um movimento artístico de inspiração expressionista e orientação anti cubista, o “Neue Künstlervereinigung München” (NKVM), constituído por artistas russos e alemães (Wassily Kandinsky, Alexej von Jawlensky, Franz Marc, August Macke, Paul Klee e Marianne von Werefkin) associado ao grupo “Die Brucke”, de Dresden, fundado em 1905. Desta ligação nasceria o núcleo do Der Blauer Reiter(1911-1914) responsável pela publicação da revista “Almanach der Blauer Reiter”.

A designação Der Blauer Reiter(O cavaleiro azul) deve-se a Kandinsky e ao título que deu a um quadro datado de 1903, (um óleo sobre tela, 55 x 65 cm hoje pertencente a uma colecção particular), que inspirou o movimento bem como diversos trabalhos de Franz Mark (1880-1916) nomeadamente “A torre dos cavalos azuis” do qual só subsiste a fotografia uma vez que desde 1945 se desconhece o seu paradeiro …

O êxito de Jawlensky, bem como dos demais “cavaleiros azuis”, na Alemanha foi, pode afirmar-se, quase espontâneo, contudo, não isento, como seria de esperar, de controvérsia. Ao tempo, os movimentos estético-artísticos europeus passaram a suscitar um inesperado interesse nos Estados Unidos da América do Norte, em intensidade e em volume. Fontes da época interpretaram esse interesse como compensador do lento declínio que se vinha verificando em Paris. Jawlensky expôs, então e pela primeira vez, no Continente Americano.

Os críticos norte americanos descobriram nas suas obras uma interpretação específica do impressionismo porque temperado por elementos identitários da sua Rússia natal, na cor e no seu tratamento, bem como na candura quase ingénua da sua forma. Parte da crítica Europeia, porventura ligada aos interesses de intelectuais e de galeristas franceses, via a sua obra como uma sequência de influências de Van Gogh, Matisse e Gauguin, nomeadamente no que concerne ao uso directo da cor nas suas naturezas mortas, paisagens e retratos. Na verdade Jawlensky conheceu Matisse no decurso de viagens a França e com ele partilhou experiências. Contudo, Kandinsky foi a sua principal fonte de ensinamentos e de motivação artística.

Juntos faziam férias pintando. Depois, dedicavam-se a um passatempo curioso: colocavam os seus quadros na estante dum pianista Russo das suas relações que vendo-as improvisava e compunha como se de pautas musicais se tratassem… O objectivo partilhado por ambos consistia em pintar para a música e desta obterem uma forma de interpretação das imagens pintadas.

Esta saga criativa na Alemanha foi interrompida com a Grande Guerra. Expulso do Reich, sem sequer poder levar consigo um só trabalho seu, Jawlensky obteve exílio na Suíça graças a uma jovem pintora alemã, também sua íntima e igualmente seu modelo: Amy (Galka) Scheyer (1889-1945).

Secundando o papel protector de Marianne von Wereflink, Amy foi mais longe. Desistiu de pintar e tornou-se a maior coleccionadora de obras de Jawlensky (mais de 120 peças…) as quais hoje, com obras de Paul Klee, Kandinsky e de Lyonel Feininger (1871-1956), pertencem ao “Norton Simon Art Museum”, em Pasadena, na Califórnia, sob a designação por si criada dos “Blue Four”.

À experiência do exílio acresce o agravamento dos sintomas duma doença degenerativa, a artrite reumatoide, que progressivamente o transformou num homem triste, centrado em si mesmo e nas suas obsessões designadamente de natureza religiosa.

São deste período obras ora abstractas, ora marcadamente repetitivas, duma qualidade considerada “meditativa e simbólica”. Com efeito, desde 1917, data da sua primeira “Mystisher Kopf” (Cabeça Mística) até à sua morte, pintou somente rostos de contornos geométricos.

A supra referida obra (um óleo sobre cartão adquirido por um anónimo num leilão da Christie’s em 2006) retrata Amy (Galka) Scheyer. Quiçá um gesto de reconhecimento por tudo quanto lhe devia, ou, numa acepção mais psicanalítica, o rosto duma presença obcecante, comumente chamada em Portugal de saudades…

As demais “cabeças místicas, e as “Meditações” pintados por Jawlensky constituem variações sobre um único tema: o rosto como forma icónica de representação do humano e do transcendente centrado em Cristo.

Regressado à Alemanha finda a guerra, o ambiente que antes conhecera já não existia. Fora destruído e seria agravado pelas sucessivas crises de todo o género que redundaram no surgimento do III Reich. Regressar à Rússia, desde 1917 devastada pela guerra civil que culminaria com o domínio Bolchevique, era-lhe impossível e tentá-lo sequer, para o ex-militar ao serviço do Czar, aristocrata e Cristão Ortodoxo que era, significaria perseguição e aniquilamento.

Jawlensky sentiu-se um proscrito e um apátrida. Em 1939 a sua arte foi oficialmente considerada pela “cultura” do regime Nacional Socialista como “degenerada” e consequentemente foi-lhe expressamente negada autorização para a exibir.

Entretanto a artrite fez dele um inválido. Só conseguia pintar segurando o pincel com as duas mãos e movimentando-o com sucessivos e dolorosos impulsos dos ombros.

Até à sua morte pintou incessantemente o rosto de Cristo. Rostos abstractos para uns, para outros cubistas. Sintéticos, meditativos e sofridos que na sua estrutura básica se desenvolvem em torno da forma da cruz. Às obras desta sua fase, a derradeira, deu o nome de “Die Meditationen” (As Meditações).

“A arte verdadeiramente grande só pode nascer dum sentimento religioso. A Arte anseia por Deus”.

(Alexsej Jawlensky Lebenserinnerungen - Hanau, 1970)

Sugestões de consulta: Artbios e Nortonsimon

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